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capebalo
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capebalo@lemmy.eco.br Joined: 2025-02-28 |
O lado oculto dos wearables: relógios inteligentes podem favorecer ansiedade e desconexão corporalSmartwatches e apps prometem mais controle e bem-estar, mas, sem contexto, podem gerar culpa e abalar a saúde mental ^Por Isabella Abreu^ Nunca tivemos tanto acesso a dados sobre o próprio corpo. Frequência cardíaca, qualidade do sono, passos, calorias, níveis de estresse. A promessa é sedutora: medir mais para viver melhor. Mas, na prática, o uso de relógios inteligentes e outros wearables vem revelando um paradoxo: aquilo que deveria promover saúde e autocuidado pode, em alguns casos, alimentar ansiedade, autocobrança e até perda de autonomia. “O monitoramento contínuo é bastante útil quando ajuda a ampliar a consciência e orientar mudanças realistas de comportamento”, afirma Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Saúde Mental e Bem-Estar. “Mas ele se torna problemático quando passa a ocupar um lugar central na regulação emocional da pessoa.” No consultório, a endocrinologista Alessandra Rascovski tem visto um fenômeno cada vez mais comum: pacientes angustiados por causa de métricas. “Eu achei que dormi bem, mas o relógio disse que não”, relatam alguns. Para a especialista, que também é autora do livro Atmasoma - O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor (EV Publicações), o ponto crítico é quando o dado passa a competir com a percepção. “A tecnologia pode ser uma grande aliada. Ela mostra tendências, ajuda a acompanhar padrões e, quando bem interpretada, favorece decisões mais conscientes. O problema começa quando o número vira julgamento. Quando o score vira identidade. Quando o aplicativo passa a ditar o humor do dia”, avalia. Zoldan observa que esse deslocamento pode vir acompanhado de sinais claros de alerta: dependência dos dados para decisões simples, irritação diante de indicadores ruins e uma necessidade constante de desempenho. “A pessoa deixa de usar os indicadores como referência e passa a ser usada por eles”, afirma. A lógica da performance - tão presente no trabalho e na vida social - invade o cuidado com a saúde. Metas diárias deixam de ser guias e passam a funcionar como cobranças. Não bater o número esperado pode gerar uma culpa desproporcional, enquanto bons resultados oferecem uma sensação momentânea de validação. A ilusão de controle “A quantificação da saúde traz uma sensação de objetividade, mas pode induzir a uma ilusão de controle”, explica Zoldan. “E nem tudo que é relevante clinicamente é mensurável, e nem tudo que é mensurável é clinicamente relevante”, destaca. Isso se torna especialmente problemático quando métricas são interpretadas de forma isolada. Oscilações normais - como uma noite mal dormida ou uma variação na frequência cardíaca - podem ser vistas como sinais de algo grave. O resultado é um ciclo de hipervigilância e ansiedade, fenômeno que alguns especialistas associam à “cybercondria”, ou seja, a preocupação excessiva com a saúde a partir de dados e informações fragmentadas. O cérebro viciado em métricas Segundo Alessandra, cada notificação ativa o sistema de recompensa do cérebro. “Existe um componente dopaminérgico envolvido na busca por números melhores, círculos fechados, metas cumpridas. O cérebro gosta de completar tarefas”, explica. A questão é que esse mecanismo pode levar à hipervigilância, que é algo prejudicial à saúde. “Quando usamos wearables de forma contínua, sem critério, podemos cair em uma lógica de controle excessivo. Em vez de escuta corporal, passamos a depender de validação algorítmica. Em vez de perceber como nos sentimos, esperamos o gráfico nos dizer”, alerta. Sono sob pressão: o risco da ortossonia No caso específico do sono, os efeitos podem ser ainda mais evidentes. Segundo Rogério Santos da Silva, coordenador do núcleo de tecnologia da Academia Brasileira do Sono, o monitoramento pode ser útil para criar consciência sobre hábitos, como regular horários ou reduzir estímulos à noite, mas deixa de ser benéfico quando gera ansiedade ou comportamentos rígidos (tentar “forçar” o sono para melhorar números é um exemplo). “O sono é um processo biológico espontâneo - quanto mais tentamos controlá-lo de forma excessiva, mais ele tende a se desorganizar”, afirma. Um dos fenômenos associados a esse cenário é a ortossonia, isto é, a busca obsessiva por um sono “perfeito” com base em métricas. Entre os sinais de alerta estão checagem constante dos dados, ansiedade antes de dormir, frustração frequente com resultados considerados inadequados e desvalorização da própria percepção de descanso. Além disso, embora os dispositivos tenham evoluído, eles ainda oferecem estimativas - não diagnósticos. “Métricas como ‘sleep score’ devem ser vistas como aproximações, e não como avaliação clínica”, diz Silva. Para questões como suspeita de insônia, apneia ou outros distúrbios, esses dados são insuficientes e a avaliação por um especialista é fundamental. Como usar a tecnologia a seu favor Para que os wearables sejam aliados - e não fontes de pressão -, o ponto de partida é mudar a forma de usá-los. Em vez de tratar as informações como verdades absolutas, o ideal é encará-las como referências que ajudam a identificar padrões ao longo do tempo. Como destaca Silva, esses dispositivos devem ser vistos como “ferramentas auxiliares, não como árbitros absolutos.” Na prática, isso significa priorizar tendências, e não se prender a oscilações pontuais; evitar a checagem constante ao longo do dia; e flexibilizar metas, entendendo que o corpo não funciona de forma linear. Um dia ou outro fora do padrão não define sua saúde. Outra estratégia importante é selecionar apenas algumas métricas realmente relevantes, em vez de acompanhar tudo ao mesmo tempo - o excesso de informação tende a confundir mais do que ajudar. Também é recomendável criar momentos sem monitoramento. “O descanso mental também faz parte do cuidado”, afirma Alessandra. No fim, o uso equilibrado passa por integrar os dados com a percepção subjetiva. “A tecnologia pode ser uma ferramenta de autoconhecimento, desde que não se torne fonte de ansiedade. Se gerar culpa, comparação ou perfeccionismo, vale se perguntar: isso está ampliando minha consciência ou estreitando minha liberdade? Nenhum relógio substitui a capacidade de sentir o próprio corpo. Cuidar da saúde não é se vigiar. É se escutar”, enfatiza a endocrinologista. |
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